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Armadilhas da oração em público

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Quem de nós, num culto, já não já convidado a fazer uma oração? Ou, mesmo sem ser indicado pelo dirigente, não orou em público espontaneamente? Essa é uma prática natural no meio de nossas igrejas. Entretanto, temos observado que, muitas vezes, caímos em certas armadilhas da oração em público.

Parece que não entendemos que orar é o ato mais simples da vida cristã. Como observou certa vez William Gurnall: "Oração: ela é a respiração natural da fé". Afinal, orar é falar com Deus. E falar com nosso Pai envolve pedir, agradecer, interceder por alguém, glorificar a Deus com nossas palavras.

Se lermos atentamente a Bíblia, veremos nela um verdadeiro manual de oração. Encontramos exemplos notáveis de oração: Abraão orou por Sodoma (Gn 18.23-33); Moisés, pelos israelitas idólatras (Ex 32.11-13,31,32); Ana, pela sua maternidade (1Sm 1.10-13); Salomão, na dedicação do templo (1Rs 8.22-54); Ezequias, na invasão assíria (2Rs 19.15-19); Esdras, pelos pecados do povo (Ed 9.6-15); Daniel, pelos judeus no cativeiro (Dn 9.3-19); Jesus, na oração dominical e sacerdotal (Mt 6.9-13, Jo 17); Paulo, pelos efésios (Ef 3.14-21). Há ainda orientações de como orar, além de muitos outros exemplos de oração. Claro que não são modelos para serem repetidos, ou copiados por nós. Agora, de uma coisa estamos certos: todos nós podemos aprender a orar, com os servos de Deus do passado, tanto em particular quanto em público.

No entanto, há certos modelos de oração, presentes hoje em nossas igrejas, que mostram a necessidade de ensino bíblico sobre como orar, principalmente em público. Em Lucas 11, lemos que, após Jesus ter orado, um dos discípulos pediu: "Senhor, ensina-nos a orar como também João ensinou aos seus discípulos". Será que não temos a mesma carência de ensinamento, hoje, sobre o assunto?

Nos ensinos de Jesus, encontramos duas orientações importantes sobre a oração. Na primeira, ele nos ensina a orar propondo um modelo, a "Oração do Pai Nosso" (Mt 6.9-13). Na segunda, mostra-nos um exemplo que não deve ser seguido, conforme registrado na Parábola do Fariseu e do Publicano, em Lucas 18.9-14. O fariseu, em pé, no templo, "orava para si mesmo". Iniciando com uma gratidão de autoglorificação, fez uma exposição da sua justiça própria e condenou o publicano, que, como as prostitutas, era considerado a escória religiosa da época. A seguir, exibiu soberbamente sua prática do jejum e do dízimo. Que fariseu religioso!

Enfim, o fariseu fez a sua oração, daquela que "não passa do teto", como se diz. A partir dessa forma de orar, mostrada na parábola, podemos alistar cinco armadilhas a que estamos sujeitos quando oramos em público.

A ARMADILHA DA ORAÇÃO FORMAL

Formal é o "que não é espontâneo; que se atém às fórmulas estabelecidas; convencional" (Novo Aurélio-Século XXI). Portanto, a oração formal não é espontânea, é simplesmente uma reprodução de fórmula e é mecânica. Muitas vezes, a oração é parte de um programa da igreja ou de um culto. E, quando alguém ora, faz mais para cumprir um ritual. A oração inicia e termina com os mesmos dizeres. Até parece uma reza. O que se pede e agradece muda pouco. Às vezes, tudo dito às pressas para terminar rápido. Geralmente, a oração formal é feita, em público, pelas mesmas pessoas que oram, sem entusiasmo e vida. Por esse motivo, expressou muito bem Thomas Goodwin: "As orações que despertam a Deus devem despertar-nos também".

A ARMADILHA DA ORAÇÃO RETÓRICA

Todos estamos sujeitos à tentação da oração retórica. Claro que é recomendável o uso de palavras adequadas e com uma certa vibração emocional, a fim de que entusiasme o irmão ao lado, para concordar com o "amém". Entretanto, há o perigo de a oração tornar-se um discurso intelectual cheio de frases recheadas de palavras não compreendidas pelos demais. É uma oração em verdadeira "linguagem estranha". Ninguém entende; é como se falasse ao ar.

O problema maior é que, na oração retórica, a preocupação de quem ora é impressionar os outros, esquecendo-se de que "o alvo da oração é o ouvido de Deus", como expressou bem o pregador batista inglês Spurgeon. Se é Deus quem nos deve ouvir, para que fazer da oração um desfile de palavras rebuscadas e frases pomposas? Pensando nisso, afirmou o teólogo Agostinho: "Quando oras, necessitas de piedade, não de verbosidade". Ou como Cipriano: "Deus não ouve a voz, mas o coração". Podemos concluir, portanto, que o Pai ouve, verdadeiramente, os que oram a ele em espírito e em verdade.

A ARMADILHA DA ORAÇÃO EXIBICIONISTA

Apesar da semelhança com a oração retórica, a prece exibicionista promove quem ora como o melhor crente da igreja. Geralmente, usa também palavras difíceis. Todavia, o seu maior interesse é a exibição da religiosidade, contra a qual o Senhor Jesus falou: "E quando vocês orarem, não sejam como os hipócritas. Eles gostam de ficar orando em pé nas sinagogas e nas esquinas, a fim de serem vistos pelos outros. Eu lhes asseguro que eles já receberam sua plena recompensa" (Mt 6.5, NVI).

Os exibicionistas da oração gostam de orar publicamente e com impostação de voz. Eles se utilizam de jargão religioso bastante conhecido, mas impressionante. Para os que oram exibidamente, o alvo da oração não são os ouvidos de Deus, mas os dos expectadores.

Sem nenhuma pretensão de julgamento, podemos dizer que, normalmente, quem ora para se exibir não é muito de orar reservadamente. Por isso, ele se esmera em público para mostrar aos outros que é um crente de oração. Tendo isso em vista, ao ensinar a orar, Jesus deu mais importância à oração em particular: "Mas quando você orar, vá para seu quarto, feche a porta e ore a seu Pai, que está em secreto. Então seu Pai, que vê em secreto, o recompensará" (Mt 6.6, NVI). Por isso, o grande pregador Moody afirmou que "o segredo da oração é a oração em secreto".

A ARMADILHA DA ORAÇÃO HOMILÉTICA

Homilética é a arte da pregação. O problema da oração homilética é que, em vez de ser dirigida a Deus, se dirige apenas aos presentes. Quem pratica esse modelo de orar, às vezes, faz verdadeiros "sermões encomendados" bastante duros, inclusive com passagens bíblicas, com aplicação muitas vezes inadequadas. Embora não haja problema em orar citando a Bíblia, o que se questiona é o propósito mascarado de alfinetar o irmão e o objetivo de pô-lo em situação constrangedora diante da igreja.

Lembra-se do fariseu da parábola contada por Jesus? Ao orar, ele atingiu em cheio o companheiro de culto dizendo que não era "como este publicano".

Como já vimos, nesse modelo de oração, as indiretas são verdadeiras diretas contra alguém presente, às vezes, até contra o pastor.

Uma oração homilética seria mais ou menos assim: "Senhor, não permitas que o irmão (às vezes, diz até o nome) deixe teus caminhos. Ele precisa orar mais, ler mais a tua Palavra, porque como está escrito: ‘o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca’. Porque na verdade todos nós somos pó; por isso precisamos temer e tremer na tua presença. Fortalece teu servo e que ele faça a tua vontade em sua vida. E que ele também possa ter um compromisso maior contigo."

Orando assim, notifica-se sutilmente o que talvez se passe na vida alheia, tornando-se eventualmente um prato cheio para os fofoqueiros. Após o culto, na saída, começam os cochichos: "Ouviu, irmão, o que está acontecendo com a(o) irmã(o)? Puxa! Não sabia que ele (ou ela) estava em pecado." Aí, para aliviar a consciência e despistar os cochichadores dizem: "Temos que orar por essa pessoa". Será que Deus se agrada disso?

De modo geral, quem ora jogando carapuça nos outros tem problemas não resolvidos. Às vezes, as acusações indiretas (ou diretas) não passam de projeções de dificuldades pessoais, aliadas a uma atitude bem legalista e farisaica. Esquece-se do que alerta Paulo: "Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia" (1Co 10.12). Evitemos esse modelo de oração homilética e aprendamos com Thomas a Kempis que "sublime é a arte de se conversar com Deus".

A ARMADILHA DA ORAÇÃO PROLONGADA

À luz de exemplos bíblicos, não é incorreto fazer orações longas. Na Bíblia, encontram-se exemplos de orações longas, assim como curtas. Tudo é uma questão de adequação. Há ocasiões, principalmente em cultos públicos, em que se deve orar abreviadamente. Orar brevemente não quer dizer que Deus não vá abençoar os pedidos feitos. E orações "quilométricas" não significam, por isso, que seremos automaticamente respondidos. Alguns cristãos se esquecem de que o valor de uma oração não deve ser medido pelo seu tamanho.

Aliás, Jesus não via com bons olhos as orações longas dos escribas, pois eram elas um meio de compensar injustiças praticadas contra as viúvas (Lc 20.46, 47). É provável que a oração longa, em público, seja indício de pouca ou nenhuma espiritualidade. Para muitos, orar longamente pode ser uma compensação da falta de oração "em secreto".

Não devemos dedicar bastante tempo à oração? Sim, claro. Vejamos o exemplo de Neemias que, após conhecer a situação crítica do seu povo e de Jerusalém, chora e lamenta por alguns dias (Ne 1.4). Depois lemos, dos versos 5 ao 11, que ele faz uma longa oração. Entretanto, quando está diante do rei, este lhe pergunta: "Que me pedes agora?" Diz o texto que Neemias orou ao Deus dos céus (Ne 2.4), e isso imediatamente antes de dar a resposta ao rei. Talvez tenha feito uma oração "telegráfica" silenciosa. F.B. Meyer, comentando a passagem, escreve "que haviam passado quatro meses desde que Neemias se dedicara à oração especial. Entre a segunda pergunta do rei e a resposta de Neemias, o simples copeiro encontrou tempo para orar ao Deus do céu".

Segundo ensino e prática de Jesus, podemos e devemos estar em longos momentos de oração. O Senhor Jesus, quando dedicava tempo para orar, retirava-se da multidão. Assim devemos fazer porque, como declarou Thomas Brooks: "O melhor cristão é aquele que mais monopoliza tempo para a oração particular".

Podemos concluir com a afirmação de que todos estamos vulneráveis, pelo menos, a uma das armadilhas da oração em público. Quem nunca caiu numa delas atire a primeira pedra. Todavia, a prática sadia da oração particular vai nos moldar a fim de que não caiamos em uma dessas arapucas. Concordo com Stanley Jones quando disse: "A oração é a exposição da alma ao Grande Deus". Se tivermos isso em mente, diminuiremos bastante o farisaísmo de nossas orações até o ponto zero, pois "orar de maneira correta é um dom raro", já dizia Calvino. Esse "dom raro" só se adquire no aprendizado da vida cristã. Porque só se aprende a orar orando.

Independente de ser em público, ou em particular, será que nossa prática de orar é conveniente? Por mais que tenhamos uma vida devocional efetiva, saibamos disso: não temos conhecimento completo da oração eficaz que faria Deus se render diante de nossas palavras. No entanto, não desanimemos, porque o Espírito Santo "nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis.E aquele que sonda os corações conhece a intenção do Espírito, porque o Espírito intercede pelos santos de acordo com a vontade de Deus" (Rm 8.26,27, NVI).

Pr. Roberto do Amaral Silva
Pastor da Igreja Batista em Vila Pedroso e professor do Seminário Teológico Batista Goiano
Goiânia (GO)

 
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