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A recaída do uso de drogas

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Certa vez, uma amiga de minha família, cujo esposo é dependente de álcool, contou que o seu médico recomendou que ele entrasse numa igreja para conseguir parar de beber. Isso me impressionou porque o conselho dado mostrava que mesmo os profissionais de saúde têm percebido a relação entre Evangelho e recuperação de vidas.

Quem nunca ouviu falar de alguém que, após a conversão, abandonou hábitos prejudiciais para si ou para os outros?

Muitos estudos têm sido feitos associando a religiosidade com a melhoria na saúde física e emocional das pessoas. Em relação ao uso indevido de álcool e outras drogas, constata-se que as pessoas que estão em tratamento e praticam paralelamente atividades religiosas têm mais chance de recuperação do que os que não praticam.

São duas formas diferentes de saber – o científico e o religioso – que podem ser complementares, potencializando o alcance dos resultados esperados. Cabe salientar aqui que a igreja deve estimular que o novo convertido também busque atendimento profissional, afinal, da mesma forma que são vários os fatores que favorecem o aparecimento do problema (emocionais, orgânicos, sociais), são vários os que interagem neste processo de recuperação.

Por outro lado, alguns não têm acesso a este tipo de serviço ou não querem um tratamento técnico e mesmo para estes a religião tem trazido uma ajuda importante. Alguns autores explicam o fenômeno pela experiência de conversão, outros pelo apoio social recebido e outros pela função da religião de oferecer regras à vida das pessoas.

Não é objetivo deste artigo, contudo, conversar sobre as contribuições da religião neste aspecto mas mostrar que a recaída faz parte do processo de recuperação – 80% das pessoas passam por ela em algum momento –, como forma de aumentar o suporte teórico dos que desenvolvem seu trabalho com este público e esclarecer à igreja como um todo o que acontece com nossos irmãos que, mesmo após a conversão, retomam o uso de drogas.

Recaída, por definição, é um lapso que a pessoa comete na tentativa de mudar determinado comportamento. A palavra lapso, aliás, é mais adequada do que recaída, pois sugere uma saída provisória da meta e não que a pessoa seja incapaz de conseguir seu objetivo.

Por exemplo, quando uma pessoa decide fazer um regime para emagrecer, mas em determinada ocasião come algo a mais, isso é um lapso. O mesmo ocorre quando a pessoa decide abandonar a ociosidade e praticar atividades físicas, ou passar a estudar mais, ou romper com um relacionamento. Quando a gente vê, já recaiu. O jeito então é aprender com a experiência a fim de se fortalecer, para, na próxima vez, tentar agir diferente, até que ganhe domínio da situação.

O problema que ocorre em relação a uma pessoa que por anos fez uso de álcool ou outras drogas é a expectativa irreal de que repentina e definitivamente ela mude seus hábitos. Esta cobrança, mesmo que não seja explícita, em lugar de ajudar na recuperação, acaba contribuindo para que um lapso se torne novamente uma regra.

Marllat e Gordon, terapeutas norte-americanos, explicam que se as pessoas acreditam que um lapso indica o fracasso do tratamento para a abstinência, podem estar mais propensos a desistir dos esforços por mudança e aceitar como inevitável que não têm recuperação. Por outro lado, se as pessoas vêem um lapso como um equívoco, uma oportunidade para novo aprendizado e crescimento pessoal, estarão menos propensas a desistir.

Algumas situações favorecem a recaída e é importante que a igreja esteja atenta para oferecer suporte especial às pessoas nestes momentos. São eles:

  • Os primeiros dias, devido às reações físicas de abstinência, como alucinações, irritabilidade, ansiedade, depressão, tremor, etc. Por este motivo, o médico deve ser procurado logo que a pessoa quer se abster do uso de drogas, para prescrever uma medicação que amenize a falta da droga neste momento.
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  • Estados emocionais negativos, como depressão, raiva, ansiedade (35% das recaídas). Para algumas pessoas, a droga funciona como uma espécie de bengala na qual a pessoa se apóia para não ter que enfrentá-los. Vemos com naturalidade o uso de remédios para depressão ou para dormir, mas se alguém recorre ao álcool ou outra droga, como sempre fez, achamos errado.
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  • Conflito com outras pessoas (16%). Novamente a droga funciona como uma bengala, já que, geralmente, ela não consegue resolver esses conflitos de forma satisfatória. Para tanto, ela precisará aprender a falar com a outra pessoa sobre o que a aborrece, de forma direta e não agressiva, em lugar de "engolir calada" a tudo ou reagir com violência. É um aprendizado demorado.
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  • Pressão social (20%). No início do tratamento, a pessoa deve evitar algumas situações e lugares em que o risco de usar a droga seja grande. Quem deve dizer quais são essas situações é a própria pessoa e ela mesma deve pensar em alternativas para não se expor.
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Todos estes fatores associam-se às fortes expectativas, baseadas na experiência passada, de que a droga trará efeitos positivos, esquecendo dos prejuízos que ela provoca.

Algumas pessoas, por medo de serem rejeitadas, negam a recaída e por isso é importante que saibam que as outras pessoas não estão aborrecidas ou decepcionadas com ela, mas que entendem que isto era esperado.

Caso esta pessoa tenha encontrado alguém com quem possa desabafar, é interessante perguntar a ela o que favoreceu a recaída e como ela pode fazer para, da próxima vez, resistir ao uso da droga. Aos poucos ela vai percebendo que consegue controlar o consumo da droga.

Segue, em anexo, um quadro dos Mitos e fatos sobre recaídas com reflexões para ajudar no aprendizado com essas experiências.

Os que desejarem podem aprofundar o estudo com leitura das referências citadas.

Mary Lança Alves da Rocha
Psicóloga /Bacharel em Educação Religiosa

 

Referências bibliográficas

MARLATT, G. Alan & Gordon, Judith R. Prevenção de recaída – estratégias de manutenção no tratamento de comportamentos adictivo. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

PROCHASKA, J.; DiCLEMENTE, C.C.; NORCROSS, J.C. In search of how people change applications to addictive behaviors. American Psychologist. v. 47, n. 9, p.1102-1114, sep. 1992.

MILLER , William R. & ROLLNICK, Stephen.
Entrevista Motivacional – preparando as pessoas para a mudança de comportamentos adictivos. Porto Alegre: Artmed, 2001.

 

Mitos e fatos sobre recaídas

Mitos

 

  1. Recaída é um sinal de fracasso.
  2. Recaídas significam que eu tenho que começar tudo de novo.
  3. Recaídas significam que eu nunca irei melhorar.
  4. Não há nada de bom sobre as recaídas.
  5. Recaídas significam que sou diferente, que não tenho solução
  6.  

 

 

Fatos

 

  1. Recaídas são normais, para serem esperadas, e uma parte do RESTABELECIMENTO.
  2.  

     

  3. Eu já aprendi algumas estratégias de manejar este problema. Isso levará menos tempo e esforço para começar a usá-las de novo. Eu não terei que começar do princípio.
  4.  

     

  5. Recaídas são sinais de melhora. Uma recaída só pode ocorrer depois de um progresso. Isso significa que estou progredindo.
  6.  

     

  7. Recaídas são oportunidades de aprender a manejar meu problema de novas maneiras.
  8.  

     

  9. Recaídas são provas de que sou normal e que meu progresso para a recuperação está ocorrendo. Ninguém pode aprender novas habilidades sem cair e se reerguer.
 
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