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Ação social e a história transformadora

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Em setembro de 2005, o drama das indiazinhas zuruahã, meninas que nasceram com problemas físicos e foram abandonadas para morrer, dividiu a opinião pública brasileira. Estranha para nós, esta prática dos indígenas zuruahã é baseada nas suas histórias culturais.1 Os zuruahã cultuam a natureza, crendo que tudo tem espírito, desde uma pedra até as árvores. Assim, seu modo de ver o mundo desvaloriza a vida física a ponto de praticarem infanticídio no caso de bebês que nascem doentes.

Histórias têm conseqüências. Muito do nosso jeito de ver e explicar a vida é resultado dos mergulhos que nossa imaginação faz nas histórias que nos são contadas. Através de histórias, transmitimos valores por muitas gerações, instruímos crianças sobre quem somos e como crescemos, e também orientamos e encorajamos pessoas a mudar. Histórias nos convidam a pensar e, com o passar dos anos, resultam em práticas que nem questionamos. Não é à toa que, assim que adquirimos linguagem, pedimos que nos contem histórias, a fim de povoar a mente com personagens e situações que nos ajudam a entender os acontecimentos, elaborar idéias e tomar decisões.

É curioso pensar que a revelação divina também nos foi dada através de história. Deus escolheu dar-se a conhecer e instruir seu povo desta maneira. Em toda atividade missionária, e particularmente na ação social, somos mensageiras de uma história poderosa, transformadora, capaz de mudar mentes, tirar pessoas da miséria e edificar nações justas, livres e misericordiosas. Existem histórias culturais, mas também existe uma história transformadora. O encontro entre as histórias culturais e a história bíblica da redenção deve ser ferramenta para ação social – seja com indígenas isolados na selva ou pessoas de rua que vivem nas grandes cidades.

Tipos de Histórias Culturais

As histórias culturais refletem a visão de mundo e a mentalidade das pessoas.2 Onde este ensino é encontrado na Bíblia? Colossenses 2.8,17 e 3.1-8 nos falam disso. No capítulo 2, v. 8 aparece a palavra "rudimentos" (Ed. Revista e Atualizada), no original stoicheon (plural stoicheia). Este é o vocabulário de Paulo para os elementos básicos, rudimentares, princípios primários e fundamentais da cultura. Histórias culturais são classificadas em muitos tipos. No entanto, podem ser reunidas em três grupos maiores: animismo (afirma que a realidade é espiritual, como pensam os zuruahã), secularismo (afirma que a realidade é física, como pensam os consumidores modernos) e teísmo (afirma que a realidade é pessoal, como devem pensar os cristãos).

Por que as histórias culturais são importantes?

(1) Porque elas devem ser tratadas. Há situações alojadas na cultura, como, por exemplo, infanticídio, desprezo pelos pobres, machismo, dizer que "drogado não tem jeito" e "brasileiro é preguiçoso". Estas histórias que escravizam pessoas, comunidades e nações inteiras devem ser expostas à mensagem redentora de Deus e tratadas.

(2) Porque padrões de pecado devem ser desaprendidos. Seres humanos, criados à imagem e semelhança de Deus são capazes de fazer escolhas coerentes com o evangelho e ter nova vida. Mesmo que por muito tempo os costumes tenham sido perversos – matar crianças que nascem doentes; abandonar os pobres, dependentes químicos e corruptos à sua sorte; ou abusar de mulheres – à luz do evangelho estas práticas devem ser abandonadas.

(3) Porque histórias culturais enganosas e escravizadoras competem com a mensagem do evangelho. As mentiras da cultura local cegam e imobilizam pessoas e precisam ser removidas. Mentiras geram culturas mirradas (não desenvolvidas), dependentes e retrógradas. Sob este ponto de vista, a causa da miséria são histórias culturais mentirosas, que aprisionam pessoas na penúria.

Dois Livros de Histórias

A história poderosa que temos para contar começa em um jardim e termina em uma cidade, começa com um casal e termina com um casal. Vamos fazer um exercício imaginário e pensar em dois livros. Um contém esta história que pode ser escrita em doze capítulos, distribuídos desta maneira: (1) A criação trata do poder das palavras de Deus produzindo recursos a partir do nada. (2) A rebelião descreve o mal natural, fruto do pecado e contrário ao plano original de Deus. (3 a 9) A parte mais extensa do livro trata da missão, a ação de Deus redimindo, mostrando que seu povo deve ser canal e não apenas reservatório de bênção. (10) A cruz é o tema principal e central do livro, mas não é o único capítulo em toda a história. Aqui, de forma contrária ao costume dos pagãos, Deus entrega seu Filho, em vez de receber o sacrifício dos filhos dos seus adoradores. (11) A tarefa relata a Grande Comissão que foi dada a um povo. Esta tarefa deve ser cumprida integralmente, entretanto há o risco de que seja feita pela metade. (12) A volta do Rei narra a celebração de um casamento. Para isso, a noiva deverá estar vestida com esmero e presentes deverão ser entregues ao noivo.

Muito bem, descrevemos o livro com a história completa. Mas, na nossa tarefa missionária, e particularmente na ação social, corremos o risco de não contar a história completa. Por muitos anos nossas igrejas têm se escusado de fazer ação social, dizendo que isso é trabalho "do governo", "das associações" – enfim, "dos outros". O que está acontecendo quando damos estas desculpas? Acontece que mesmo nas igrejas temos outro livro, o livro das histórias culturais. Por exemplo, as histórias animistas que só levam em conta a espiritualidade, as histórias materialistas que defendem a lei do mais forte (logo, "salve-se quem puder" e "lembre que o orçamento da igreja é curto") ou as histórias da mente cristã dividida (que defende a salvação da alma e o descaso com o corpo). O que fazemos? Arrancamos só o capítulo 10, a mensagem da cruz, do livro da história completa e o enxertamos no livro das histórias culturais. Assim, a maravilhosa, perene e fundamental história da cruz fica erroneamente "embalada" com os valores do mundo. Ficamos escravos da moda cultural. O ensino das Escrituras fica incompleto.3

Uma breve avaliação da situação na maioria das igrejas é que cristãos consomem a cultura sem discriminação de valores. Todo dinheiro do mundo não pode resolver este problema. O aspecto redentor do nosso trabalho missionário, e, de modo especial na ação social, se define como a capacidade de contar a história completa. Fomos criadas para mudar as histórias culturais de destruição semeadas sutilmente e devemos estar preparadas para fazer isto.

Como tratar histórias culturais

Mulheres cristãs em ação precisam aprender a distinguir histórias. O que o mundo está ensinando? O que trazemos como valores transmitidos pela mãe e pelas avós? Como é a história bíblica, transformadora e completa, que temos para contar a nossas filhas? Nossa fé deve informar a nossa forma de pensar, sentir e agir. Precisamos ser tratadas e fazer a obra de Deus de modo integral! Como?

1. Remover mentiras e plantar as verdades das Escrituras. Devemos proclamar o Evangelho com esta perspectiva (Colossenses 3.1-8, Efésios 2.4-5).

2. Renovar a mente, conscientes de que trazemos histórias culturais que precisam ser mudadas (Romanos 12.2, 2Coríntios 10.5, 1Pedro 1.13).

3. Contar a história completa – isto é discipular a nação; devemos ensinar pessoas a obedecer TUDO que Jesus ensinou (Mateus 28.19-20). Qual tem sido a ênfase no nosso ensino missionário? Geralmente o IDE é muito enfatizado no nosso ensino. Pessoas bem-intencionadas vão a muitos lugares, a campos distantes. Quando chegam lá, descobrem que as necessidades são semelhantes às do seu local de origem. Muitas vezes voltam cansadas e frustradas, tendo descoberto que "ir" é parte, mas não cumpre a Grande Comissão de Jesus com integralidade.

Nossa ênfase deveria ser "ir E fazer discípulos, ensinando-os a obedecer TUDO". Para isso precisamos contar a história completa. Mostrada no livro que imaginamos anteriormente com 12 capítulos, ela inclui a preocupação de Deus com: (1) Toda a criação: corpo físico, alimento, ambiente, casa, solo, ar, rios e matas. (2) O pecado, tratado em todas as dimensões, tanto na causa dentro do coração e mente da pessoa, como nas conseqüências nos relacionamentos e estruturas sociais e institucionais em todas as áreas da vida. (3 a 9) A missão da igreja, que é sair das quatro paredes e não se acomodar a programas bem elaborados e confortáveis. Devemos ser investidoras em todas as áreas da missão, sem desculpas de que quem contribui não precisa orar nem fazer. (10) A cruz de Jesus, que deve ser lembrada no sacrifício exigido a todos que se chamam seus seguidores. (11) A tarefa que deve ser bem feita e de forma completa. (12) O Noivo que voltará e a noiva que deve estar vestida com as boas obras que vão embelezá-la para o casamento, tendo em mãos os presentes para Ele, que são a glória das nações.

"Chegou a hora do casamento do Cordeiro, e a sua noiva já se aprontou. Para vestir-lhe, foi-lhe dado linho fino, brilhante e puro. O linho fino são os atos justos dos santos.

As nações andarão na luz [do Cordeiro] e os reis da terra lhe trarão a sua glória." Apocalipse 19.7b, 21.24

 

Exercício e questões para reflexão

Identificar histórias culturais mentirosas, que aprisionam pessoas no local onde vivemos (por exemplo: "homem vale mais do que mulher"). Reorientar a vida conforme a verdade bíblica que combate esta mentira.

Temos iniciativas que refletem a história completa? Programamos atividades em nossas igrejas que mostram o cuidado de Deus em todas as áreas da vida do ser humano, ou apenas tratam com a espiritualidade?

Estudamos a Bíblia considerando a história completa? Do que é capaz a mente renovada?

 

NOTAS

1 Histórias culturais: as histórias que as pessoas contam sobre si mesmas e a sua realidade, expressando sua maneira de ver a vida e o mundo.
2 Visão do mundo e mentalidade: o termo técnico é "cosmovisão", o conjunto de suposições, mantidas consciente ou inconscientemente, sobre a constituição básica do universo e como ele funciona. Muitas vezes as palavras história ou metanarrativa são usadas como sinônimos.
3 Quando o ensino das Escrituras é incompleto, diz-se que geramos animismo evangélico, secularismo evangélico, ou gnosticismo evangélico. A forma de pensar é do mundo, embora a mensagem seja bíblica.
Próximo artigo: O Papel da Igreja na Sociedade

 

 

Referências Bibliográficas

DISCIPULANDO NAÇÕES, Darrow L. Miller, FatoÉ e Harvest, Curitiba, 2000
LEAP OVER A WALL, Eugene H. Peterson, Harper SanFrancisco, New York, 1997
O drama de duas indiazinhas Zuruahã, 18/9/2005, Disponível em: http://fantastico.globo.com/Jornalismo/Fantastico

 

Eleuza Alves de Oliveira
Membro da Igreja Batista Capela da Videira
Representante da Harvest, www.harvestbrasil.com
Curitiba, Paraná

 
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