
O cristão precisa conhecer o país e saber interpretar a realidade nacional e internacional à luz da cosmovisão bíblica. Foi assim com Habacuque e com a sua expressão “até quando, Senhor?”. Neste estudo, queremos apresentar duas lições do capítulo 1 de Habacuque para edificação dos leitores.
1. O cristão deve analisar a questão do progresso do mal e do silêncio de Deus à luz da Soberania de Deus
A questão da proliferação do mal e a prosperidade dos maus é assunto inquietante para alma humana de um justificado. Assim foi com Habacuque. Em 1:4 diz que “a lei se afrouxa, a justiça nunca se manifesta, o perverso cerca o justo e a justiça é torcida”. O 1º lamento de Habacuque era por causa da frouxidão da justiça.
No capítulo 1:12-17 faz quatro perguntas:
- “não és tu desde a eternidade, ó Senhor, meu Deus, ó meu Santo”?, (vs.12).
- “...por que pois toleras os que procedem perfidamente e te calas quando o perverso devora aquele que é mais justo do que ele?”, (vs. 13).
- “Por que fazes os homens como os peixes do mar, como os répteis, que não têm quem os governe?”, (vs. 14.)
- “Acaso, continuará, por isso, esvaziando a sua rede e matando sem piedade os povos?”, (vs. 17).
Habacuque está perplexo em nível nacional diante da violência judaica, (1:2-3) e, em nível internacional, diante da violência babilônica,1:9. Os babilônicos se alegram com suas vitórias sobre os povos. Em 1:16, diz que eles adoram sua “rede varredoura”, isto é, o seu poder. II Reis 24 e 25 descrevem o que os babilônicos fizeram com Judá e como eles viveram com os despojos e riquezas conquistadas à custa de muito sangue. Habacuque queixa-se de que a impunidade leva o transgressor a executar mais injustiça e violência.
Habacuque, após suas perguntas, vigia e espera (2:1). Demonstra sua disposição e interesse em ter uma resposta. De quem? Quando você tem questões e angústias da alma que te deixa perplexo, a quem você recorre? Habacuque procurou resposta em Deus.
Ele encontrou resposta em Deus. É assim que se processa a verdadeira teologia. Diz Isaltino Gomes em sua apostila Teologia Sistemática I: “Deus não pode ser compreendido como se fosse matéria intelectual. Numa frase de Helmuth Thielicke, ´o pensamento teológico só pode respirar em uma atmosfera de diálogo com Deus`. Na frase deste ilustre teólogo alemão se observa a idéia de que a verdadeira teologia pressupõe espiritualidade. Mais em frente em sua obra, diz-nos ele: “Tenha em mente que a 1ª vez que alguém falou de Deus na terceira pessoa (falou sobre Deus e não mais com Deus), foi no exato momento em que soou a famosa pergunta: É assim que Deus disse?...”(Gn3:11). Este fato deveria fazer-nos pensar. Com isto quero dizer que não se pode ter um real proveito no estudo teológico quando este é feito de maneira acadêmica, profissional, sem sentimento” (pg. 6).
Jó fez perguntas semelhantes. A questão do mal em Jó era em nível individual. A questão do mal em Habacuque era a nível colectivo e nacional.
Contudo, o fundo era o mesmo. Por que, Senhor? Por que o sofrimento, Senhor? É um mistério que continuará até o fim. Habacuque aprendeu que Deus é Soberano (2:1 e 2:20). Deus está no seu trono, símbolo de controle, de autoridade e de poder.
Habacuque queixou-se do silêncio de Deus. O silêncio é intrigante diante de um desemprego ou diante de um câncer na família... Diz Feinberg citado por IGCF: “ silêncio de Deus nos negócios humanos, tanto ontem como hoje, tem sido difícil de aceitar. Mas isso não quer dizer que não haja uma resposta e que a sabedoria divina é incapaz de lidar com a situação.
Tudo está sob o seu olhar e todas as coisas estão debaixo do controle de suas poderosas mãos” (Isaltino, artigo Habacuque, p. 3).
“No judaísmo rabínico, posterior a Habacuque, desenvolveu-se o conceito do silêncio de Deus. Os rabinos faziam a exegese de Gênesis 1.3 e perguntavam: “O que havia antes de Deus falar?” e eles mesmos respondiam: “o silêncio de Deus”. E desenvolviam a idéia de que Deus se mantivera em silêncio, antes de um feito estrondoso. O conceito do silêncio de Deus se associou, portanto, a um prelúdio a uma ação grandiosa do Senhor. Podemos tomar este conceito emprestado e falar dos 400 anos de silêncio de Deus, sem profeta, no período intertestamentário, até que viesse o maior de todos os homens, Jesus Cristo.
Deus estava em silêncio, mas isso não significa sua apatia nem que abandonara o povo. Estava engendrando algo grandioso. O que, exatamente, podemos perguntar? E, como os rabinos, dar a resposta à nossa pergunta: o juízo sobre Judá. Habacuque via a maldade, a corrupção, o afrouxamento da justiça. Deus puniria o povo. Iria enviar os caldeus.
Mas esta resposta angustia mais o profeta. Os caldeus são piores? Como usar a maldade máxima para punir a maldade média? Quem punirá a maldade máxima?... Deus julgará os caldeus também” (Isaltino, Artigo Habacuque, p. 3 e 4).
Um rabino em 1981 escreveu, após a morte de seu filho de uma forma trágica, algo intitulado “quando coisas ruins acontecem às pessoas boas”. A conclusão a que ele chega é que Deus é bom mas há coisas fora do controle dele. Ele dá consolo para suportar a provação mas não pode acabar com ela. Habacuque chegou a uma outra conclusão. Deus não perdeu o controle. Ele é soberano. Ele descansou nisso. É verdade que não há solução, mas resolução.
Assim aconteceu com Habacuque e também com Jó. Ouvimos algures que o silêncio de Deus não significa ausência de Deus. Deus pode estar silencioso mas jamais Ele está ausente de sua vida e do mundo. Deus relembra a Habacuque que Ele está no trono e que continua a ser o Senhor da História. É a mensagem do capítulo 2. Há um Deus que vê o mal e o pune. O verbo em 2:20 é uma ordem para Habacuque: “cale-se”. A impressão é que Deus está silencioso demais? É melhor calar porque Deus vai fazer grandes coisas.
2. O cristão necessita abrir-se para Deus pela oração/intercessão, pelo ouvir e pela espera
Habacuque questiona, ora, intercede, ouve de Deus e espera em Deus, vs.2, 12-13 e 2:1. Aqui temos uma outra lição de Habacuque para o cristão de hoje. A relevância do diálogo com Deus, do ouvir e esperar de Deus como instrumento efetivo para um ministério transformador na sociedade e mundo.
O “até quando” pode ser uma forma de desabafo ou uma queixa. “Dentro de certos limites, isso não constitui pecado, principalmente por causa da misericórdia divina”(Ultimato, Maio-Junho 03, p. 28). Temos muitos “até quando” na Bíblia. Temos:
• na boca do salmista, Sl.13:1-2;
• na boca de Jeremias, Jr.12:4;
• na boca de Jesus, Mc.9:19;
• na boca do cego de nascença, Jo.9:1-12;
• na boca do paralítico, Jo.5:5-7;
• na boca da mulher encurvada, Lc.13:10-17;
• na boca de Paulo, II Co.12:1-10;
• na boca da mulher hemorrágica, Lc.8:42-48;
• na boca dos mártires, Apc. 6:10
(extraído de Ultimato, ibid).
Oração não é expressar desaforos. Não é exigir de uma forma temperamental coisas de Deus. Segundo Habacuque, é abrir-se para Deus. Deus vê e entende nossos desabafos e inquietações da alma. Não há nada de errado em expressar nossos sentimentos a Ele. Habacuque fez assim com o seu “até quando?”. Aceitou a correção de Deus quando foi por Ele confrontado (2:20). Humilhou-se diante Dele. Pode-se falar com Deus. Deus entende nossas perplexidades porque é o Deus da graça, o Santo, o Senhor e o Todo-Poderoso.
Oração em Habacuque é expressar a santidade de Deus e também inquietação. Habacuque apresentou a angústia de sua alma pelo povo. Assim fi zeram Jeremias 4:19 e Neemias 1. É demonstrar nosso inconformismo diante de certas situações de sofrimento, aviltamento da dignidade humana escravizada por forças sociais, espirituais e econômicas injustas. Ora e intercede quem conhece Deus e sente o peso da responsabilidade pelos perdidos, pelo avanço do Reino de Deus no mundo e se compadece com os que sofrem.
Oração é, também, para conhecer Deus. Oswald Chambers ajuda-nos a entender algo importante aqui. Diz ele que “as idéias que geralmente temos sobre oração não foram retiradas do Novo Testamento. Encaramos a oração como um meio de obter benefícios para nós; o conceito bíblico de oração é o de que possamos conhecer a pessoa de Deus. A idéia de que a ´oração muda as coisas` não é tão verdadeira quanto a de que a oração me muda e eu mudo as coisas. Deus elaborou tudo de tal forma que a oração com base na redenção altera a maneira pela qual encaramos as coisas. A oração não visa a modificar as circunstâncias externas, mas operar milagres em nossa disposição” ( no livro “Tudo Para Ele”, Ed. Betânia, 1988, pp.188-189).
Encontramos o que Chambers diz no livro na experiência de Habacuque. As circunstâncias não mudaram. Aliás até pioraram porque os caldeus com todo o seu poderio bélico já estavam no horizonte provocando banhos de sangue.
Conclusão:
Que tipo de cristão você tem sido: conformado, alienado ou um inconformado diante da situação espiritual e social do país e do mundo? Habacuque nos ensina que o cristão, para ter uma vida efetiva e relevante na sociedade, precisa:
1. Conhecer o país e saber interpretar a realidade à luz da cosmovisão bíblica;
2. Analisar a questão do progresso do mal e do silêncio de Deus à luz da Soberania de Deus;
3. Abrir-se para Deus pela oração/intercessão, pelo ouvir e pela espera.
Que assim seja com você e com sua Igreja!
Pr. Tomé A Fernandes
Obreiro da JMM- OEP Ásia









