
"Publicarão a memória da tua grande bondade, e com júbilo celebrarão a tua justiça" (Sal. 145.7).
O mundialmente famoso violoncelista Pablo Casals, quando tinha 80 anos, um jovem estudante lhe perguntou porque continuava a praticar com tanto afinco: "Por quê?" respondeu Casals. "È simples. É porque quero tocar melhor". Isso ilustra a ideia de que a velhice tem muito potencial latente à espera de ativação através de uma melhor cultura material, médica, social e psicológica da velhice. O envelhecimento saudável consiste em evitar descambar para a senilidade, para a doença e para a invalidez, sem jamais aposentar os músculos, o cérebro e as glândulas.
Envelhecer bem é jamais perder o interesse pela vida e procurar manter continuada atividade física e mental; não se entregar a nenhuma renúncia física prematura; dedicar-se a qualquer atividade criadora e a alguém; interessar-se pelos problemas dos jovens, filhos, netos, etc; não se isolar; não se entregar ao desânimo; aceitar a velhice com serenidade; preparar- se sabiamente para a retirada; conservar capacidade e o interesse em observar; compreender; apreender; manter quantas atividades seja capaz; descobrir prazeres e motivações próprios da sua idade.
Envelhecer frutificando, nosso objetivo
Noé se embebedou e aparentemente não fez mais nada significativo pelo resto dos seus 350 anos de vida. Eli fracassou tanto como pai quanto como profeta, vindo a morrer gordo, acabado, inativo. Salomão deixou para trás 1000 viúvas, um reino dividido, e uma nação aliviada em vê-lo partir. Não precisamos ser galhos secos na videira. "Na velhice ainda darão frutos, serão viçosos e florescentes (Sl 92.14). Em Dt 34.7, essa promessa se enfatiza: "Tinha Moisés a idade de 120 anos quando morreu; não se lhe escureceram os olhos, nem se lhe abateu o vigor". Em Is 40.31, essa verdade é reiterada: "mas os que esperam no Senhor renovarão as suas forças, subirão com asas como águias, correrão e não se cansarão, caminharão e não se fatigarão".
Envelhecer não significa ser estratificado, empobrecido de espírito ou vazio de idéias. Envelhecer tem outro sentido: é ser mais experiente, mais vivido e seguro de suas próprias ações. Envelhecer corretamente e com sabedoria deve ser o nosso objetivo. No templo de Jerusalém Maria e José, que levaram Jesus para oferecê-lo ao Senhor, encontraram o velho Simeão, que há longo tempo esperava o Messias. "E lhe fora revelado pelo Espírito Santo que ele não morreria antes de ver o Cristo do Senhor" (Lucas 2.26). Simeão teve o privilégio de estar face a face com o Filho de Deus recém-nascido e o glorificou. Sua velhice foi marcada pela expectativa deste grande acontecimento. Ele teve sua vida prolongada para que pudesse presenciar o cumprimento das promessas de redenção da humanidade, com a chegada do Filho de Deus para salvação de todo aquele que nele crê.
1. Simeão não morreria antes de ver o Cristo do Senhor.
2. Adorou a Deus pela prática da justiça e pelo temor ao Senhor.
3. Foi fiel em um contexto difícil e não teve medo da morte.
4. Era conduzido pelo Espírito Santo e tinha conhecimento da obra e ministério de Cristo.
5. Louvou a Deus com palavras que hoje são conhecidas em todo o mundo: "Agora, Senhor, despedes em paz o teu servo, segundo a tua palavra; pois os meus olhos já viram a tua salvação, a qual tu preparaste ante a face de todos os povos; luz para revelação aos gentios, e para glória do teu povo Israel" (Lc 2.29-32).
Simeão sai da peregrinação terrestre banhado de glória, sem pesar, sem desapontamentos, sem "Ah, se eu pudesse começar tudo de novo!" Era um senhor satisfeito, alerto, cheio de vida, e disponível para Deus apesar da idade avançada.
Descobrindo um sentido para a vida
Para Viktor Frankl, o homem deve ter como objetivo buscar um sentido, porque a vida excede o indivíduo e direciona-se a alguma coisa fora de si, algo ou alguém. Quando se dedica a alguém fora de sua pessoa, o homem se realiza a si mesmo. Quanto mais se dedicar a uma tarefa e colocar-se a alcançar o objetivo de servir, mais realizada se sentirá a pessoa.
Frankl (apud Freire, Resende, 2001, p. 75) foi o fundador da logoterapia, a terapia centrada no sentido, considerada como a terceira escola vienense de psicoterapia, ao lado da psicanálise de Freud e da psicologia individual de Adler. Em seus trabalhos, baseados em suas experiências como psiquiatra e como prisioneiro em um campo de concentração, ele mostrou que a busca e a descoberta de sentido são a principal força motivadora do ser humano.
O sentido da vida habilita a pessoa a manter sua saúde mental e sua integridade ainda que em condições adversas; a falha em encontrar sentido pode levar à neurose mesmo em condições favoráveis. Nos campos de concentração, ele observou que os prisioneiros mais aptos a sobreviver eram os que estavam voltados para o futuro, para uma tarefa, um objetivo a ser realizado ou para uma pessoa esperando por eles.
Frankl (1973,199) diz que a criatividade é a maior fonte de sentido pessoal, ao lado da vivência dos momentos da vida e da atitude perante o sofrimento, a ruína e o malogro. Para Wong (1989, p. 519), outras fontes seriam a educação, o trabalho, as atividades e as realizações. Em seu estudo realizado com adultos e idosos, Prager (1997,p.4) apontou como fontes de sentido para os idosos, uma diminuição da importância da realização individual e um aumento da atribuição de sentido ético e social e preocupação com o outro, incluindo a família e outras pessoas. Os pesquisadores interessados na velhice apontam a religião, a espiritualidade e a transcendência como fontes de sentido para os idosos.
Frankl conta que Goethe, quando estava em idade avançada, pôs-se a trabalhar intensamente no término da segunda parte de sua obra Fausto, o que resultou em sete anos de trabalho ao cabo dos quais veio a falecer (Goethe concluiu a obra em janeiro de 1932 e morreu em março do mesmo ano).
Para Frankl, a mortalidade corporal não poderia ser evitada, mas a morte pôde ser adiada até a conclusão do trabalho. Não se pode ter certeza de que a morte foi realmente adiada em razão da tarefa a ser concluída, mas tudo leva a crer que essa fonte de sentido motivou-o a viver para ver seu trabalho finalizado.
Estratégias para aumentar o sentido da vida
Em seu artigo de 1989 (p.519) (apud Freire, Resende, 2001, p.92,93), Wong aponta várias estratégias relevantes para aumentar o sentido, as quais são especialmente úteis para o envelhecimento bem-sucedido:
Reminiscência: a revisão de vida tem papel importante para o envelhecer bem ao dar sentido e importância para a vida da pessoa, preparando-a para a própria morte e reduzindo o medo e ansiedade; traz um senso de ordem e coerência e auxilia na resolução de questões emocionais como culpa e ressentimento.
Compromisso: definido como o empenho ou a ligação de um indivíduo em relação a seus comportamentos ou atos. Manifesta-se na busca de atividades e na dedicação da pessoa a relacionamentos significativos, valores, ideais ou tradições como fontes de sentido;
Otimismo: tem sido considerado em conexão com a saúde. A vida vale mais a pena quando há sonhos a serem vividos, tarefas a serem realizadas e novas alegrias a serem experimentadas;
Religiosidade e bem-estar espiritual: sempre tidos como importantes fontes de sentido, envolvem as crenças religiosas e a prática de fazer o bem e ajudar outras pessoas. Como a principal função da religião é entender o significado da vida, da morte e do sofrimento, muitas respostas as questões existenciais são obtidas por seu intermédio.
Em seu trabalho de 1998 (p. 381), Wong sugere outros caminhos para viver uma velhice com sentido: O trabalho criativo nas artes e em outros domínios da experiência estética podem proporcionar sentido e satisfação;
Relacionamento estável e com significado. Saber-se responsável, necessário e importante para alguém pode ajudar a pessoa a superar limitações esofrimentos físicos;
Autotranscendência na forma de servir a Deus e o próximo, importante não só na velhice, mas durante toda a vida;
Prazeres simples da vida, como dar e receber, observar os pássaros, admirar um campo florido, descansar à sombra de uma árvore, rir com e como uma criança;
Esperança para o futuro, lembrar que amanhã é um novo dia e que sempre há uma luz no fim do túnel.
Arte de viver
"E o enchi do Espírito de Deus, no tocante à sabedoria, ao entendimento, a ciência e a todo ofício" Êxodo 31.3. Viver é uma arte. Deus é Autor da vida e Grande Oleiro, que nos molda dia a dia, como diz a Bíblia e nos delegou a tarefa de construir o mundo. Birman (2002) nos assevera que "sonhar, devanear, jogar e pensar são experiências de alto risco, nas quais, de forma trágica e alegre, realizamos efetivamente algo da ordem da transgressão. Estaria aqui, pois, a matriz de qualquer criatividade possível, assim como da sublime ação...
Nesse contexto, a "fantasia" começa a operar sem obstáculos, indo por caminhos inesperados na sua "errância" ociosa, delineando novos possíveis". Como é bom olhar as belezas criadas por Deus para o nosso deleite e bem estar. Como é interessante também verificar esculturas, pinturas, músicas geradas por pessoas na idade avançada.
A última obra grandiosa de Leonardo da Vinci (que morreu com 67 anos) foi Os Desenhos do fim do mundo. Aos 60 anos, fez de seu rosto uma extraordinária alegoria da velhice, os traços são esculpidos pela experiência e pelo conhecimento; são os de um homem chegado ao apogeu de sua força intelectual, e que se situa além da tristeza e da alegria; está desiludido, à beira da amargura, sem, entretanto, entregar-se" (Beauvoir, 1970, p. 368).
Monet, "dotado de uma espantosa capacidade de trabalho, gozando de excelente saúde, mesmo,embora num dado momento, sua vista se tenha embaçado, cercado de amigos, amando a vida, é assim que ele se representa na tela, no que poderíamos chamar a exuberância da velhice: empertigado, risonho, tez brilhante, barba abundante, olhar cheio de fogo e alegria". (Beauvoir, 1970, p. 369)
Apesar de negar a sua idade aos 70 anos, pintando-se com os traços de um homem de 50 anos, a velhice de Goya não foi apenas um ascender a uma perfeição cada vez maior, mas também uma constante renovação. Aos 80 anos, desenhou um velho com o rosto afogado numa juba e numa barba branca, apoiado em duas bengalas: a legenda é: "Estou sempre aprendendo". (Beauvoir, p.369)
Ignoramos se Ticiano chegou aos 90 ou 100 anos, mas sabemos que sua livre espiritualidade se manifestou em obras da velhice, através de um dinamismo e uma vitalidade espirituais. "Cristo Coroado de espinhos" foi a obra-prima de sua velhice, e já muito velho, pintou quadros belíssimos. Conquistou o direito de conduzir sua pintura por um caminho deserto e sem retorno – um caminho solitário.
Miquelângelo compôs seus imortais sonetos, aos 79 anos, e faleceu aos 89, enquanto trabalhava em uma nova Pietá.
Beauvoir, em seu excelente livro "A velhice" (1970), diz: os pintores têm necessidade de tempo para superar as dificuldades do seu ofício, e muitas vezes é na última idade que produzem suas obras-primas" (p. 499) ... "é que o heroísmo não está apenas na relação com um corpo insubmisso, também está em descobrir alegria em progressos que a morte logo vai interromper; em continuar, em querer superar-se, mesmo conhecendo e assumindo a própria finitude" (p. 504).
Os idosos ao se reunirem para se desenvolver na arte (canto coral, pintura, artesanato, trabalhos manuais, escultura,etc) alcançam novos patamares existenciais. Claude Viallat (1982), um artista francês muito engajado em suas atividades, quer pintando ou ensinando nas escolas de arte, se doa para sua arte como se doa dentro da arena, quando pratica a tauromaquia. Ele diz que é para medir o desgaste de seu corpo. Suas atitudes estéticas são a herança de rituais herdados da sua cultura meridional, ou de culturas mais longínquas, como a dos índios da América (a velha ciência dos nós, tão necessária para fabricar armadilhas de caça).
A arte e os recursos culturais são poderosas ferramentas para o crescimento e a conquista da qualidade de vida do idoso. Nunca é tarde para se exercitar a sensibilidade que existe latente em cada ser humano.
Ao criar, estabelecer metas, indicar novos interesses, os artistas idosos estão reforçando sua afetividade, sua autoestima e mantendo atitudes positivas diante da vida, confirmam estarem melhorando sua qualidade de vida, embelezando mais o mundo e a história com as marcas da sua sabedoria.
Conclusão
Qual o verdadeiro sentido do envelhecimento? Há esperança para o seu envelhecer? Qual o sentido da sua terceira idade? "Viver para a glória de Deus é a maior realização que podemos alcançar em nossa vida" (Rick Warren, 2003).
"Bendirei ao Senhor em todo o tempo; o seu louvor estará continuamente na minha boca" (Sal. 34.1).Nossa motivação é glorificar e agradar ao nosso Criador. "Portanto, quer comais quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus" (I Cor. 10.31).
Não apenas nos templos, mas em toda a nossa vida devemos adorar. Quando você vive sob a luz da eternidade, seu enfoque muda de "Quantoprazer posso ter em minha vida?" para "Quanto prazer Deus pode ter em minha vida?" (Warren,2003, p.68.)
Referências bibliográficas
BEUVOIR, Simone de. A velhice. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1970.
BIRMAN, Joel. Fantasiando sobre a sublime ação. In: Psicanálise, Arte e estéticas de subjetivação. BARTUCCI, G. (org.). Rio de Janeiro:Imago Ed., 2002.
DOMINO,C. L’art contemporain. Paris: Éditions du Centre Georges Pompidou, 1994.
FRANKL, V.E. Psicoterapia e sentido da vida. SP: Quadrante, 1973.
FREIRE, A. S.;RESENDE, M.C. Sentido de vida e envelhecimento. In:NERI,A.L. (org) Maturidade e envelhecimento. SP: Papirus, 2001
PRAGER, E. Meaning in later life: An organizing theme for gerontological curricum design. Educacional Gerontology 23, pp. 1-13, 1997.
WARREN, R. Uma vida com propósitos.SP: Ed. Vida, 2003.
WONG, P.T.P. Personal Meaning and successful aging. Canadian Psychology 30:3, pp. 63-88, 1989.
(*) SAMUEL RODRIGUES DE SOUZA é Ministro da 3a. Idade da Ig. Bat. Carioca, RJ/ Secretário Geral Adjunto da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia–Seção RJ/ Pós-Graduado em Geriatria e Gerontologia Interdisciplinar/UFF, com Especialização sobre Envelhecimento e Saúde do Idoso/ Escola Nacional de Saúde Pública – Fio Cruz. Membro da Equipe de Geriatria e Gerontologia Interdisciplinar, do Hospital Universitário Antônio Pedro, UFF – Niterói, RJ/ Coordenador de Oficina de idosos no Programa de Atenção Integral à Pessoa Idosa – PAIPI – da Escola de Enfermagem Ana Nery, UFRJ/ Editor Chefe do Jornal da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia– Seção RJ.
Contatos: Cursos de Treinamento de Líderes p/ 3a. Idade, Palestras e Oficinas c/ Idosos: R. Visc. de Sta Isabel, 161/1201/Cep 20560 120 – Vila Isabel, RJ/Tel. (021)2577- 3097 ou 99324822 (celular)/ Email: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.
Livros de autoria de Samuel Rodrigues de Souza editados pela UFMBB:
• Ao Encontro dos Amanhãs - O Envelhecer Feliz
• 3a Idade Dinâmica - Como Organizar Um Grupo Com Idosos









