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Fiquei viúva: E AGORA?

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E era viúva, de quase oitenta e quatro anos. Não se afastava do templo,

servindo a Deus noite e dia em jejuns e orações. Lucas 2. 37 

Irmã Sebastiana, 73 anos, foi casada há 50 anos com o irmão Severino, 78 anos. O casal era membro de uma igreja batista. Depois que criaram e casaram os cinco filhos, propuseram no coração servir integralmente ao Senhor oferecendo seus dons, talentos  e tempo para o crescimento do reino. O casal era um exemplo para a igreja e pareciam recém-casados. A relação conjugal deles transparecia amor, carinho, respeito, companheirismo, cumplicidade e que os dois eram feitos um para o outro.

 

Um dia, o irmão Severino teve um infarto fulminante que o levou à morte, e a irmã Sebastiana ficou viúva. E agora, o que será da irmã Sebastiana? Esta foi a pergunta que mais se ouvia nos corredores da igreja. Outras perguntas também surgiram: Coitada, o que ela fará sem o irmão Severino? Será que vai morar com algum filho? Ou será que vai continuar a morar sozinha naquela casa que traz tantas lembranças dele? Quem vai sustentá-la? Será que vai casar de novo? Ela continuará a trabalhar na igreja? Será que ela vai ficar deprimida? 

Já é notório o progressivo crescimento da população idosa brasileira – predominantemente feminina. Por exemplo, no Estado do Rio de Janeiro, na faixa etária de 70 anos, ou mais, a  proporção é de 57 homens para cada grupo de 100 mulheres.

O Rio de Janeiro é o Estado brasileiro onde a feminização da população idosa é mais marcante. Em média, as mulheres vivem seis anos a mais do que os homens e vários são os fatores que determinam essa diferença de anos vividos entre os homens e as mulheres. Podemos destacar os fatores biológicos, sociais, culturais, comportamentais e até mesmo genéticos. É normal constatarmos nas atividades que envolvem a Terceira Idade a presença maciça de mulheres. Isso acontece em nossas igrejas também. As pesquisas realizadas pelos órgãos oficiais brasileiros apontam que as mulheres correspondem a dois terços da população acima de 75 anos. Ou seja, para cada 100 idosos com idade igual ou superior a 75 anos, dois terços (quase 67 são mulheres).

Não podemos achar que isso seja uma grande vantagem, pois as mulheres ficam mais expostas na velhice à viuvez, a doenças, à solidão e até mesmo ao preconceito. Outro dado importante para considerarmos é o fato de que as mulheres idosas são na maioria viúvas, solteiras ou separadas. 

A irmã Sebastiana ficou viúva aos 73 anos de vida. Seu marido era cinco anos mais velho do que ela. Na época em que ela se casou (1938) era absolutamente normal mulheres se casarem com homens mais velhos. Ainda hoje é um pouco assim. Mulheres vivem mais do que homens e, portanto, a viuvez da irmã Sebastiana é um fato comum no envelhecimento.

Apesar do sofrimento, da tristeza, da ausência e das implicações que a morte do marido trouxe a sua vida, a irmã Sebastiana representa um pouco o que acontece com as mulheres no envelhecimento. Estamoschamando a atenção para o fato de que na Terceira Idade é muito mais comum mulheres do que homens viúvos. E também salientamos que homens e mulheres reagem de formas distintas, pois quando os homens ficam viúvos, é mais comum se casarem novamente, o que não acontece na mesma proporção com as mulheres. Pense na sua igreja: quantas irmãs são viúvas? Quantos irmãos são viúvos? Quantos se casaram novamente? Os homens casaram com mulheres da mesma faixa etária deles ou com mulheres mais novas?

A nossa intenção neste estudo é considerar a viuvez nas mulheres idosas. Interessa-nos refletir, à luz do conhecimento bíblico e cristão, o que uma mulher viúva pode fazer com esta nova condição conjugal. A Bíblia nos ensina a confiar e esperar no Senhor Jesus Cristo. Lembramos que para o crente “o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Filipenses 1.21). A morte não é o fim da vida. Morreré partir para estar com Cristo no céu. Um dia, todos nós estaremos no céu com Jesus. Enquanto este dia não chega, é nossa responsabilidade sermos bons mordomos da vida que o Senhor Deus tem nos concedido. Vamos pensar um pouco sobre isso.

 

Não há muitos viúvos na história bíblica. Gênesis 23.1-2 nos conta que Sara morreu antes de Abraão. Ló, seu sobrinho teve sua esposa transformada numa estátua de sal (Gn 19.26) e Judá (Gn 38.12) também teve sua esposa morta antes dele. Talvez, esses personagens sejam os únicos viúvos de toda a Bíblia. A Bíblia nos apresenta uma série de mulheres viúvas. As mais conhecidas são Rute e Noemi, nora e sogra. A história está descrita no livro de Rute.  Há viúvas no Velho e Novo Testamento. Algumas são referidas sem nome: “a viúva de Sarepta” (1 Rs 17.9); “a viúva do azeite  (2 Rs 4.1-7); “a viúva de Naim” (Lc 7.12); “a viúva pobre” (Lc 21.2). Outras têm seus nomes mencionados: Tamar (Gn 38.11); Abigail (1 Sm 25.38 – depois da morte do marido casou-se com Davi); a cunhada de Rute, Orfa (Rt 1.4,5); a profetisa Ana (Lc 2.36-37). 

A viuvez na Bíblia está associada à condição sócio-econômica.

 

A maioria das viúvas naquele tempo era realmente pobre. A condição da mulher era muito diferente de hoje. Viúvas não tinham o direito de trabalhar e, portanto, dependiam somente da caridade dos parentes, quando morria o marido. A lei judaica, face às dificuldades da pobreza e marginalização, estabeleceu normas de proteção específicas para os órfãos, estrangeiros e viúvas (Ex. 22.20; Dt. 14.28; 24.1; 26.12-13; 27.19). Jesus se compadeceu da viúva de Naim (Lc 7.11-17) e movido de íntima compaixão ressuscitou o filho dela.  A instituição dos diáconos (At 6.1) está associada à presença das viúvas que estavam sendo esquecidas na distribuição diária do pão.

 

A Bíblia nos ensina muito com as histórias das viúvas. Deus, na sua infinita misericórdia providenciou o sustento para elas. Deus não desampara os seus filhos. Deus não desampara as viúvas. Elias foi alimentado pela viúva de Sarepta. Eliseu multiplicou tanto o azeite da viúva que não havia mais vasilhas para guardar o azeite. Jesus deu vida ao filho da viúva de Naim. Os diáconos foram instituídos para prover as necessidadesdas viúvas. Enfim, Deus tem o controle de tudo.

 

Fiquei viúva. O que faço?

 

A viuvez – estado de uma pessoa depois da morte do seu cônjuge – pode trazer à mulher inúmeras transforma-ções nos aspectos psicológico, social, emocional, financeiro e espiritual. Ela demarca o início de uma nova fase na vida da mulher que diante do acontecimento, apresenta-se à família e à sociedade como uma pessoa com um novo status: viúva. É natural sentir a falta do companheiro que durante anos dividiu a vida em comum. Há a necessidade de dar-se um tempo para a elaboração do luto, da perda e também um tempo para a reorganização da vida.  

O tempo que a pessoa precisará será definido por critérios individuais. Algumas pessoas se organizam muito rapidamente, outras precisam de mais tempo. O importante é que sejam  respeitadas nas suas singularidades. A família, os parentes, os amigos e a igreja têm um papel muito importante nessa fase. Cabendo-lhes acompanhar, estar presentes e respeitar o momento que a pessoa viúva está passando.  

Às vezes, o tempo que precisamos para nos reorganizarmos emocionalmente é pressionado pelas providências que devem ser tomadas para a continuação da vida cotidiana. Recomenda-se que decisões que envolvam áreas importantes da vida devam ser tomadas com prudência e cautela. Por exemplo: não decida de imediato se você vai vender a casa onde mora e vai se mudar para a casa de um filho, filha ou nora. Espere um pouco para tomar essa decisão. Espere um pouco e reflita sobre o que quer e com quem quer morar. 

Hoje, há um grande número de pessoas idosas que moram sozinhas. Talvez esta seja a sua opção. Os filhos geralmente querem o bem dos seus pais. Motivados pelo cuidado e carinho, muitos pressionam as mães a morarem com eles depois da morte do pai, alegando que estarão melhores em suas companhias.  Apesar da intenção ser ótima, nem sempre esta é a melhor solução, pois há situações em que essas mudanças trazem vários transtornos à família e a viúva perde a sua privacidade e  independência.

Mas há também aqueles casos em que as pessoas se adaptam muito bem à nova realidade e a viúva se sente de verdade acolhida. Sugerimos que a decisão seja tomada comcalma, analisando todas as vantagens e desvantagens. Não tome essa decisão no dia seguinte ao sepultamento do seu marido. Espere. Pense. Peça orientação ao Senhor Jesus e submeta-se a Ele. 

A viuvez pode trazer marcas profundas para algumas mulheres. Apesar de ser fato comum no envelhecimento, é uma situação especial, não planejada e que pode resultar em grandes modificações na vida das mulheres, já que muitas mulheres idosas são dependentes dos maridos. Encontramos muitas idosas que não sabem administrar o orçamento familiar, os bens patrimoniais e outras providências práticas.

Quando o esposo falece, há uma dificuldade muito grande em assumir o papel de liderança da casa.  Recomendamos às viúvas que tenham paciência e se esforcem em aprender a lidar com contas, a pagar, a receber, providências jurídicas, documentos do imóvel, pensão etc. Se precisar de ajuda especializada, procure um advogado, contador ou outro profissional que possa ser útil. Reconheça a sua limitação e peça ajuda. Lembre-se de não assinar procurações que transfiram poderes irrestritos e ilimitados a terceiros. Se precisar assinar alguma procuração, veja se está bem especificado o propósito.  

Amplie a rede dos seus relacionamentos. Conheça novas pessoas. Muitos maridos não deixam a esposa terem um rol grande de relacionamentos sociais. A morte do marido pode ser uma oportunidade para conhecer novas pessoas. É importante termos amizades, principalmente no envelhecimento. A solidão pode ser a porta para a depressão.  Rute não se isolou. Foi em busca de novos relacionamentos e fortaleceu velhas amizades. Em  nossas igrejas há várias atividades que as pessoas idosas podem participar.

Procure um grupo da Terceira Idade. Os grupos de idosos são excelentes espaços de socialização, encontro e oferece a oportunidade de passeios, viagens, atividades que podem contribuir para o conhecimento de novas amizades. Rute casou-se novamente. Algumas viúvas casam-se novamente. O importante é que seja uma decisão abençoada pelo Senhor como foi o caso de Rute. 

Há muitas coisas a serem feitas após a morte do marido. Há providências práticas. Mas há também muitos desafios e o que organizar. Há oportunidades de servir ao Senhor, dedicando a Ele seus talentos e dons. O importante é que estejamos nas mãos do Senhor. A vida continua. Deus tem em Suas mãos o melhor para você, se estiver caminhando próximo a Ele e com Ele. No tempocerto todas as suas reais necessidades serão plenamente satisfeitas.

 

Conclusões

 A religiosidade que agrada a Deus deve ser praticada também no cuidado às viúvas. A Bíblia nos ensina isso: “Honra as viúvas que são verdadeiramente viúvas” escreve Paulo a Timóteo. (1 Tm 5.3-7). “A religião pura e imaculada diante de nosso Deus e Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições e guardar-se isento da corrupção do mundo” (Tg.1.27). Honrar, visitar, amparar, consolar são responsabilidades dos crentes em Jesus. Muitas vezes, as viúvas precisam de palavras e atos de apoio e consolo. Muitas outras precisam de ajuda material para superar as dificuldades decorrentes do falecimento do marido. Precisamos estar alertas a essas necessidades. Há sempre alguma coisa que podemos fazer individualmente ou como igreja de Cristo.   

A mulher que perdeu o seu marido não deve pensar que a vida acabou para  ela. Rute não pensou assim! Rute procurou ocupação. Não deixe que a sua mente se transforme num baú de velhas memórias no passado. Rute transformou sua mente numa oficina de coisas novas, ela foi à luta. Não ficou consumida entre lembranças e histórias do marido em casa. Noemi, apesar da viuvez ajudou sua nora também viúva. Deus ordenou os eventos de tal maneira que ela teve uma vida agradável e profícua em sua velhice, “Então as mulheres disseram a Noemi: Bendito seja o Senhor, que não deixou, hoje, de dar remidor, e seja o seu nome afamado em Israel.” (Rt 4.14). 

É importante lembrar que nós, mulheres, vivemos mais, entretanto, isso não quer dizer que vivamos em condições melhores. O processo de envelhecimento populacional tem e terá impacto relevante sobre as diversas esferas da sociedade (trabalho, política, direito, cultura, economia etc.) como também nas nossas igrejas. Precisamos estar atentos e comprometidos com esse importante grupo que faz parte das nossas igrejas. Devemos estar atentos às necessidades dos idosos, principalmente das viúvas e dos viúvos.  

Para você que ficou curiosa para saber o que aconteceu com a irmã Sebastiana após o falecimento do esposo, concluímos que ela resolveu continuar a morar na casa onde viveu com o esposo durante 27 anos e passou a receber a pensão que lhe era suficiente para as despesas. Osfilhos combinaram em fazer supervisão a distância das suas necessidades. Depois de um ano, ela passou a freqüentar uma Universidade da Terceira Idade, onde alargou a sua rede de  relacionamentos e fez um curso de informática.

Na igreja, continuou a servir nas áreas que gostava: ação social e ensino. Seja abençoada com a história de mais uma serva do Senhor. A irmã Vera, 75 anos, viúva e residente na cidade de Tatuí, interior do Estado de São Paulo nos transcreve seu testemunho:

“Esses dias tenho lido muito sobre a velhice, o envelhecer, mas tudo enfocando o casal envelhecendo junto. E quando um fica o outro vai? Como se sente o que fica? Só? Aleijado? Sem rumo? Meu marido sempre dizia que ele deveria ir primeiro porque eu saberia como me arranjar. Deus, creio eu, atendeu ao seu pedido, levando-o antes. No primeiro momento foi como estivesse acordando. Era de repente uma  nova realidade. E me perguntava: será que ele existiu mesmo? Quando a médica confirmou o fim, tive uma reação instantânea: Senhor, eu aceito, eu o entrego a Ti. Naquele momento lembrei-me de outras pessoas que não aceitaram a separação de seus entes queridos e carregam até hoje “o (a) falecido (a)” como um fardo, como um aguilhão. Ao ir dormir, naquela noite e fazer minhas orações, falei comigo mesma: Você agora vai dormir só. Quando amanhecer não haverá ninguém ao seu lado. Eu estava apreensiva em acordar e ficar procurando no vazio ao lado. Mas também raciocinei: Não tenho ele ao meu lado, mas o Senhor está comigo! Tenho ocupado cada minuto que Deus me concede e por isso dou graças. Claro que sinto as conseqüências do passar dos anos, do desgaste físico, mas em tudo dou graças porque o Senhor tem me mostrado o caminho através de livros que tenho lido. Eu tenho espelho em casa e todos os dias me vejo nele ao me pentear, mas sempre me admiro, pois o rosto que vejo nele não combina com o que sinto ser minha alma. E fico alegre... porque isso me traz mais força para prosseguir no caminho que o Senhor me tem indicado. Estou sempre procurando aprender mais a Palavra de Deus e, conseqüentemente, como viver com os que me cercam e os problemas de cada dia. Principalmente, tenho procurado passar adiante o que aprendo. Há tanto o que fazer...”. 

Deus permitiu que você vivesse anos maravilhosos com seu marido. Se o levou e a deixou aqui, é porque ainda tem um plano especial para você. Nós, mulheres devemos ser sensíveis ao que Deus deseja de nós, pedindo-lhe que nos mostre o que quer de nós agora. Deus nos ama.  Lembre-se de que Ana não se afastava do templo servindo a Deus noite e dia. Seja uma bênção onde estiver! Que Deus nos abençoe.  

Marília Berzins, SP

 

Atividade prática

1. Faça uma pesquisa na sua igreja. Veja quantas pessoas idosas (60 anos e mais) são membros. Faça um levantamento por grupo etário com intervalo de cinco anos; sexo; estado civil; nível deescolaridade e outros dados que julgar importante. Compare o número de viúvos e viúvas.Pense o que a sua igreja e a MCA podem fazer com esses dados. Há a necessidade de se criar um ministério específico para atender às particularidades das pessoas idosas?

2. Leia os textos bíblicos referidos no texto. Que lições podemos aprender das narrativas bíblicas? 

Referências:

 

BATISTA, Anália Soria. Envelhecimento e Dependência: desafios para a organização da proteção social. Coleção Previdência Social. Vol 28. Brasília: IPEA, 2008.  Idosos Brasileiros: indicadores de condição de vida e de acompanhamento de políticas. Brasília: Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, 2005. Síntese de Indicadores Sociais. Uma análise das condições de vida da população brasileira 2007. Rio de Janeiro: IBGE, 2007.
 
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