
É o Espírito Santo quem promove o avanço missionário. No entanto, o Espírito promove esse avanço através de quem? Como o Espírito pode fazer com que a missão seja cumprida, se não através de pessoas? Ora, essas pessoas constituem precisamente a Igreja de Jesus Cristo.Da mesma forma como é impossível missões sem o Espírito, é impossível missões sem a Igreja. Espírito mais igreja é igual a missão! Essa é a matemática de Deus.
MISSÃO é o cumprimento da vontade de Deus para a igreja em termos de evangelização, ação social, adoração e edificação no contexto social imediato onde se acha inserida. MISSÕES é o cumprimento de todas essas coisas em outro contexto, isso é, ocorre a obra de missões quando a igreja tem que transpor uma fronteira para cumprir sua missão.
Missões é parte integral da missão, de modo que não se pode falar sobre um conceito sem se pensar no outro. A igreja que não realiza “missões” não está cumprindo sua missão.
O caráter missionário da igreja
Conforme Atos 1.4,8; 2.1, o que constitui a igreja é a reunião dos irmãos (“todos reunidos”), o Espírito Santo (“Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo”), a missão (“ser-me-eis testemunhas”), tanto em Jerusalém, e as missões (“como em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra”). Um grupo de pessoas reunidas não se constitui em igreja, mesmo que assim se autodenomine. Só existe igreja quando esse grupo recebe poder do Espírito Santo e realiza a sua missão. A mudança interior que fez do grupo uma igreja é obra do Espírito Santo, e o sinal de que isso aconteceu é a missão. Onde não há missão também não há Espírito Santo, e, portanto, não há igreja. Sobre isso, o teólogo E. Brunner afirmou: “A igreja existe para a missão, como o fogo para a combustão”.
Jesus constituiu a igreja porque enviou o Espírito Santo a um grupo que tinha se formado, pela fé, em torno dele e lhe deu sua missão. Exatamente! A missão que a igreja recebeu pertencia a Jesus. Em João 20.21 e 17.18, Jesus diz que mandou seus discípulos com a missão que tinha recebido do Pai. Por isso a missão faz parte da essência da igreja juntamente com a comunhão (koinonia) e o Espírito Santo. É a missão, no entanto, que justifica a existência da igreja. Uma igreja sem missão é uma igreja sem Cristo.
A missão do Pai foi encarnada no Filho, e através do Espírito Santo é cumprida na igreja. A igreja é chamada Corpo de Cristo porque continua a sua obra redentiva e é o meio para a realização da missão e também a expressão de seu resultado. Todos os que compõem a igreja devem a todo momento estar envolvidos com a missão. Missão não é um ministério especializado; faz parte da essência da igreja e é componente natural do ser cristão. Isso porque a igreja é agência missionária do reino de Deus, ou então não é igreja; e porque não existe nenhuma outra igreja senão a igreja enviada ao mundo, nem há outra missão a não ser a da Igreja de Cristo.
A centralidade da igreja local
De que estamos falando quando dizemos “igreja”? O nome é sempre a tentativa de se definir a identidade daquilo ou de quem se nomeia. Quando alguém me pergunta “Quem é você?”, eu sempre repondo “Sou fulano de tal” – falo o meu nome. Assim também, para entendermos a igreja precisamos observar os nomes que ela recebe na Bíblia. São muitos! Um autor chegou a listar mais de cem; no entanto, três nomes se destacam por estarem ligados, cada um deles, a uma das pessoas da Trindade: Povo de Deus, Corpo de Cristo e Comunidade do Espírito Santo.O que esses nomes significam para a igreja é impossível de se expressar integralmente. Pois cada um revela riquezas insondáveis. Resumidamente, pode-se dizer que destaca cada um deles umas das três características essenciais da igreja: ser um grupo (Povo de Deus), ter a missão de Cristo (Corpo de Cristo) e partilhar da presença do Espírito Santo (Comunidade do Espírito Santo).
Os teólogos, no afã de expressarem o que percebiam ser a igreja, cunharam termos como Igreja local e Igreja universal. Entretanto, isso não era necessário. O conceito bíblico de povo de Deus atende perfeitamente à ideia de Igreja universal; não era preciso criar um termo novo. O conceito Igreja local por sua vez, pode ser melhor definido, em termos bíblicos, com a expressão comunidade. Comunidade do povo de Deus. Só poderemos ter a visão do povo de Deus no dia em que Jesus Cristo voltar. Hoje só nos é acessível a visão da comunidade do povo de Deus e esse ajuntamento local de servos e discípulos de Jesus Cristo, a que chamamos de igreja.
A esse grupo pertence a missão de Deus repassada por meio de Jesus. Como nenhum outro ajuntamento de cristãos pode ser chamado de comunidade do povo de Deus, a obra missionária que pertence à igreja tem de se apoiar nela. Isso quer dizer que todo trabalho missionário deve se referir e prestar contas à igreja, como comunidade do povo de Deus. Qualquer trabalho que menospreze essa instituição divina carece em absoluto de legitimidade.
As igrejas, devido ao elevado custo de alguns empreendimentos missionários, muitas vezes se associam para sustentar a obra missionária. Como resultados dessas associações, surgem as “agências missionárias”. Cujos exemplos mais conhecidos entre os batistas são a Junta de Missões Nacionais e a Junta de Missões Mundiais. Toda e qualquer agência, no entanto, só tem lugar na medida em que serve às igrejas na amplificação dos efeitos de sua ação missionária. Agências são instrumentos das igrejas dentro de um trabalho cooperativo, e existem por causa das igrejas, e não as igrejas por causa das agências.
Outra implicação disso é que não existe, a rigor, o missionário tipo franco atirador, ou seja, o missionário independente da igreja. Esforços isolados e individualistas enfraquecem o avanço como um todo das igrejas. Jesus disse que o inferno não poderia colocar portas fechadas ao avanço da igreja. É, portanto, a igreja reunida e agindo como um corpo que deve planejar e se responsabilizar pela obra missionária transcultural.
A igreja no mundo como agência do reino de Deus
O caráter missionário que a igreja possui significa que ela deve ser marcada pela missão. Isso quer dizer que a igreja deve reconhecer que Deus ama o mundo todo, e não apenas a ela. A igreja é a expressão do amor de Deus para com o mundo; um instrumento da sua graça; uma agência do seu reino. Pensando assim, a igreja pode aceitar o desafio de participar da luta pela transformação do mundo e conspirar contra as trevas em nome do reino de Deus. Isso faz com que ela mantenha uma relação estreita com o mundo. Nisso há o risco da mundanização, mas ninguém jamais disse que missões não implicaria em riscos. De qualquer forma, o extremo oposto, isso é, o isolamento, é um risco igualmente perigoso. A relação da igreja com o mundo não deve ser nem de mundanização nem de isolamento, mas de transformação.
O parágrafo 6 do Pacto de Lausanne expressa isso de maneira extraordinária: “A igreja ocupa o ponto central do propósito divino para com o mundo, e é o agente que ele proveu para difundir o evangelho. Mas uma igreja que pregue a cruz deve, ela própria, ser marcada pela cruz. Ela se torna uma pedra de tropeço para a evangelização quando trai o evangelho ou quando lhe falta uma fé viva em Deus, um amor genuíno pelas pessoas, ou uma honestidade escrupulosa em todas as coisas, inclusive em promoção e em finanças. A igreja é antes a comunidade do povo de Deus do que uma instituição, e não pode ser identificada com qualquer sistema social ou político, nem com ideologias humanas.”.
O caráter missionário da igreja faz com que todos os ministérios missionários e todos os crentes estejam à disposição do Senhor, de prontidão, para serem convocados à obra missionária transcultural. A experiência da Igreja de Antioquia, em Atos 13, nos indica isso. Aliás, essa passagem demonstra também que os missionários, gerados no seio das igrejas, são pessoas convocadas por Deus e se tornam recursos que o Espírito Santo dá às igrejas para que participem eficazmente na sua missão. Por isso a igreja deve cuidar deles com o máximo de carinho, cuidado e respeito, cultivando-os e recebendo-os como uma bênção do Senhor.
A missão que a igreja recebeu de Jesus é a missão de ser serva, e não senhora. Como Cristo, a igreja está no mundo para servir, e não para ser servida. Só quando a igreja assumir a forma de serva, terá assegurada a credibilidade no seu testemunho. As missões no seio da igreja fazem com que ela assuma a forma de serva.
Que Deus nos ajude, como igreja, a encarnar missões, e com isso assumir o caráter de Jesus Cristo. Pr. Orivaldo Pimentel Lopes Júnior
Igreja Batista Viva em Natal, RN









