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Envelhecimento - desafios para a igreja do presente e do futuro

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É visível o aumento do número de pessoas idosas na vida social. Não nos causa mais surpresa verificarmos que os assentos reservados aos idosos nos transportes coletivos, nas filas preferenciais dos estabelecimentos bancários ou nos supermercados são cada vez mais ocupados pelos maiores de 60 anos. Em todos os espaços da vida pública os idosos estão cada dia mais presentes e ativos, revelando e dando visibilidade ao envelhecimento da população brasileira. Assim como na sociedade, nossas igrejas também refletem esse fenômeno verificado pelo aumento do número de idosos no rol de membros. Já não nos causa estranheza comemorarmos aniversários dos membros que celebram seus 90, 100 anos ou mais.

Na igreja em que sou membro, Primeira Igreja Batista do Brás em São Paulo, 30% dos membros têm idade igual ou superior a 60 anos. No ano de 1991, os idosos representavam apenas 15% do total de membros; em 17 anos, dobrou o percentual de idosos em nossa igreja. Talvez isso tenha acontecido na sua igreja também.

Recentemente, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou os dados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio do ano de 2007. A pesquisa revelou a existência de quase 20 milhões de idosos brasileiros, correspondendo a 10,5% do total da população. As mulheres vivem mais do que os homens, por isso foi constatado na pesquisa que havia 79 homens idosos para cada 100 mulheres.

Esses dados são muito importantes para entendermos o que está acontecendo com a população e também em nossas igrejas. Não podemos nos esquecer que o envelhecimento diz respeito à sociedade, à família, ao Estado e diz respeito a nós cristãos.

A Organização das Nações Unidas (ONU) declarou, em 2002, que o envelhecimento foi a maior conquista da humanidade no último século. Envelhecer é também uma conquista social. Deus permitiu o desenvolvimento da ciência e da tecnologia para que as pessoas pudessem viver mais. O que temos feito com os anos a mais que alcançamos? No começo do século passado as pessoas não viviam mais que 45 ou 50 anos. Hoje, a vida humana pode ultrapassar com facilidade os 100 anos. Quando Abrão foi chamado para ser o pai de uma grande nação Deus ordenou que ele fosse uma bênção.(Gn 12.1-3). Temos a responsabilidade de sermos bênçãos em todos os ciclos e etapas da nossa vida. Na velhice ainda darão frutos, serão viçosos e florescentes para proclamarem que o Senhor é reto. (Sl 90.14,15).

A sociedade do presente já está envelhecendo. Num futuro próximo o número de pessoas idosas será bem maior na sociedade e também em nossas igrejas. As previsões estatísticas dizem que no ano de 2020 o Brasil será o sexto país do mundo com maior número de idosos. Nossas igrejas terão cada vez mais pessoas idosas e cada vez menos crianças e adolescentes, portanto, a nossa preocupação deve ser em envolvermos as pessoas idosas nas atividades da igreja. Sem nos esquecermos de que a Igreja deve se preparar para receber pessoas de todas as idades, sejam elas crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos. O evangelho de Jesus Cristo é para todos. O evangelho restaurador oferecido por Jesus é a oportunidade que Deus concede ao homem de se restabelecer com o Criador.

Não podemos deixar de lembrar que o envelhecimento se manifesta de forma diferente nas pessoas. Deus nos fez pessoas com características particulares. As pessoas idosas não são todas iguais. A velhice é um processo que inicia-se na concepção. Não nos tornamos idosos somente quando completamos 60 anos. Portanto, não podemos tratar a velhice como se fosse um fenômeno homogêneo. Há várias formas de envelhecer e o respeito a esta diversidade deve ser o ponto de partida na convivência saudável com as pessoas idosas. Olhar o envelhecimento sob este ângulo pode favorecer uma vivência boa e saudável. Não somos iguais e, portanto, não devemos pensar que todos os idosos são iguais.

O envelhecimento populacional se apresenta com vários desafios para a sociedade, para a família e para o próprio indivíduo que envelhece. As políticas públicas estão avançando na conquista dos direitos das pessoas idosas, mas há ainda uma dívida social muito grande para com os brasileiros que já ultrapassaram os 60 anos. As políticas públicas de saúde, assistência social, educação, segurança precisam avançar para garantir aos idosos uma boa velhice.

Nossas igrejas também podem colaborar para que os idosos vivam em condições melhores. Destaco alguns dos desafios com os quais as igrejas podem contribuir.

1º desafio – Cuidar dos idosos que precisam de cuidados

Um grande desafio que a longevidade traz para nossas igrejas é o cuidado para com este grupo etário. Cuidado significa atenção, zelo, precaução, cautela, carinho, responsabilidade, amor. Paulo nos ensina: E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria. (1 Co 13. 2). Nossas igrejas devem ter olhar e atenção para ofertar cuidados às pessoas idosas que necessitam de proteção e cuidado. A formalização desse cuidado pode se manifestar com a criação de um ministério específico para a Terceira Idade ou idosos. O livro 3ª idade Dinâmica de autoria de Samuel de Souza e publicação da UFMBB, oferece boas sugestões.

As famílias brasileiras estão passando por uma importante mudança em sua composição e constituição. Hoje já não temos tantas famílias numerosas porque houve uma importante redução do número de filhos. No Brasil, a média de filhos por mulher está em torno de 1,8 filho. O menor número de filhos nas famílias pode representar a diminuição do número de cuidadores no futuro. Outro aspecto a ser considerado é o fato das mulheres, tradicionais cuidadoras, terem ido para o mercado de trabalho. As mulheres estão trabalhando fora de casa e por isso impossibilitadas de dedicar o tempo que o cuidado de pessoas dependentes exige. Esses dois fatores são determinantes nas alterações das famílias brasileiras. Quem cuida do idoso que precisa de cuidados? É importante destacar que nem todo idoso precisa ou precisará de cuidados.

A igreja pode contribuir muito com os idosos que precisam de cuidados, oferecendo suporte para suprir as suas necessidades. Os membros podem ajudar oferecendo companhia a idosos que moram sozinhos, acompanhamento a consultas, internações, visitas hospitalares, bancos, supermercados, comércio etc. Muitos idosos não possuem recursos financeiros para pagar os cuidadores profissionais. Nossas igrejas têm um importante potencial humano e precisamos sensibilizar todos a olhar ao redor e ajudar aos que precisam. Há idosos que devido as suas limitações físicas não podem usar o transporte coletivo e por isso ficam impossibilitados de comparecer aos cultos. A igreja pode promover a "carona solidária" ou quem sabe, oferecer transporte especial para buscar os idosos para as atividades que realiza. Há uma infinidade de maneiras de ajudar. A igreja do presente e do futuro precisa se dispor a cuidar dos idosos que necessitam de cuidados.

2º desafio – Evangelização de pessoas idosas

Para a maioria das pessoas idosas a espiritualidade e a religião representam algo muito importante e chegam a ser um dos determinantes para a sua qualidade de vida. Estudos apontam que nessa etapa da vida as crenças, comportamentos religiosos, práticas devocionais estão mais presentes do que em qualquer outro grupo etário. A espiritualidade e a religiosidade podem melhorar o estado de bem-estar, diminuir os níveis de depressão e angústia e também contribuir na socialização. A velhice é uma excelente oportunidade para as pessoas procurarem o encontro com a fé e a espiritualidade. É nessa fase da vida que as perguntas existenciais "Quem sou eu?, Por que estou no mundo?, Que sentido tem a minha vida?, Para onde vou?" se tornam mais inquietantes. A velhice é considerada a última etapa da vida e isso faz com que ocorra o pensamento sobre a morte e o morrer. A finitude torna-se mais real e próxima.

A religião é apontada como um dos indicadores que podem melhorar a qualidade de vida do idoso. Um estudo feito pela comunidade judaica em São Paulo constatou que a religião foi um fator preventivo contra a depressão: 80% dos idosos que não eram deprimidos possuíam compromissos com a religião que professavam. Outro fator a ser considerado, é a importância que a fé e a espiritualidade podem desempenhar no enfrentamento das situações de conflito vividas na velhice.

Um importante estudo realizado em São Paulo pelo projeto Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento (SABE) pesquisou entre os idosos sobre espiritualidade e religião. A análise dos dados permitiu concluir que quanto mais longevo, mais religioso o idoso se torna. A pesquisa encontrou apenas 1,2% de idosos que se declararam sem religião. Chamamos a atenção para o fato de que há diferença de graus de importância da religião na vida dos idosos. Para as mulheres a religião é mais importante do que para os homens e outra constatação é o fato de que as mulheres estão mais dispostas a mudar de religião do que os homens. Os idosos que vivem sozinhos dão mais importância à religião do que aqueles que vivem acompanhados.

A prática da espiritualidade pode colaborar e facilitar a aceitação das perdas, das tristezas e das doenças. A religião pode oferecer o sentimento de pertencimento a um grupo social, fator importante para a auto-estima e autocuidado. Ser membro de um grupo religioso é considerado como um importante laço social e afetivo. Muitos idosos declararam que seus amigos estão entre os membros da igreja que freqüentam e são com esses amigos que podem contar quando estão passando por qualquer dificuldade.

Os corações dos idosos estão sedentos da mensagem salvadora de Jesus Cristo. Nós precisamos aproveitar a fertilidade de seus corações e estabelecer um plano de evangelismo específico para eles porque precisam do evangelho transformador, acolhedor e consolador.

Pessoas precisam ser treinadas para ganhar os idosos para Jesus e nossas igrejas precisam ser acolhedoras para recebê-los.

3º desafio – Aproveitamento dos dons e talentos

O envelhecimento não significa necessariamente a aposentadoria dos talentos e dos dons. Muitos idosos podem e querem continuar a servir suas igrejas nas funções que desenvolviam em outras etapas de suas vidas. Idosos podem, se desejarem, continuar a exercer os diversos ministérios para os quais foram chamados.

No Brasil Batista há um número importante e significativo de pastores idosos, de professores e professoras da EBD, de líderes denominacionais, tesoureiros, tesoureiras, coordenadoras da MCA, líderes de cantinas e uma infinidade de funções. Nossos pastores, nossos líderes e nossas igrejas precisam continuar a prestigiar e valorizar o serviço das pessoas idosas em nossas igrejas.

A expectativa de vida do brasileiro já superou os 72 anos de vida. Isso faz-nos pensar que, cada vez mais, teremos pessoas em condições de desenvolver, por um maior tempo, seus talentos no serviço cristão. Não podemos achar que já está na hora de os mais velhos pararem. Temos que incentivá-los a continuar prestando seus serviços. Há lugar para todos.

E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. A cada um, porém, é dada a manifestação do Espírito para o proveito comum. Ora, vós sois corpo de Cristo, e individualmente seus membros. (1 Co 12. 5, 7 e 27). Deus convoca e capacita com os dons todos os cristãos para o serviço, inclusive, as pessoas idosas. No corpo de Cristo tem lugar para todos.

Penso que nossos líderes e pastores ao fazerem apelos missionários deveriam incluir convite e chamado específico para os idosos. As Juntas de Missões Nacionais e Mundiais podem promover projetos específicos para os mais velhos, pois nessa fase há muito tempo livre e desejo de servir, além de estabilidade financeira por conta da aposentadoria (pelo menos o que se imagina!). Não podemos mais ter apelos somente para jovens. Idosos podem e querem ser missionários também. Sabemos de idosos que tiveram um chamado vocacional no passado e não atenderam. Talvez na velhice seja o tempo de retomar o chamado e servir a Deus em algum campo missionário. Os Projetos Radicais e as TRANS têm envolvido muitos idosos.

Conclusão

O salmista nos ensina a contar os nossos dias para alcançarmos um coração sábio (Sl 90.12). Só podemos contar nossos dias vivendo ano a ano, contando os ciclos da nossa existência e também as fases que cada ciclo nos aponta, no entanto, não podemos contar sem propósitos. Qual é o propósito que Deus nos aponta? Alcançar um coração sábio. O coração sábio é aquele que não perde a oportunidade que Deus concede, e transforma os seus dias em maneiras de servir, de pregar, de testemunhar e de ser bênção.

Quanto tempo você já tem de existência? Qual tem sido o seu propósito nessa vida? Seu coração é sábio? Você tem apenas contado os dias ou tem tido uma vida que valha a pena aos olhos de Deus e dos seus irmãos?

Envelhecer é uma etapa normal do ciclo da vida, porém devemos viver da melhor forma possível, buscando dar um significado que valha a pena a todos os dias da nossa existência.

O desafio, então, é sermos úteis aos nossos familiares, aos vizinhos, aos amigos, aos nossos irmãos em Cristo. Eis que o temor do Senhor é a sabedoria. (Jó 28.28).

 

Referência bibliográfica

Revista Saúde Coletiva. Ano 5. Ed. 24. Número especial. Saúde do idoso. SABE – Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento. São Paulo: Editorial Bolina Brasil Ltda., 2008.

Marília Viana Berzins, SP*
*Assistente Social
Mestre em Gerontologia
Membro da Primeira Igreja Batista do Brás em São Paulo, SP

 
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